O problema. Investidores não podem confiar nos relatórios das empresas

Num mundo perfeito, investidores, membros dos conselhos de administração e executivos teriam total confiança nos relatórios financeiros das empresas.

Poderiam basear-se nos seus números para fazerem estimativas inteligentes acerca da magnitude, timing e incerteza dos cash flows futuros e para julgar se o valor estimado está justamente representado no atual preço das ações. E poderiam decidir sensatamente se investiam ou compravam uma empresa.
Infelizmente, e por muitas razões, não é isto que acontece no mundo real. Em primeiro lugar, os relatórios financeiros corporativos dependem necessariamente de estimativas e decisões subjetivas que podem estar bastante incorretas.
Os gestores e executivos veem-se frequentemente perante fortes incentivos a introduzirem erros deliberados nos relatórios financeiros.
Em segundo lugar, as métricas financeiras padronizadas, que permitem comparações entre as empresas, podem não ser a forma mais rigorosa de avaliar o valor de uma determinada empresa, fazendo surgir medidas não oficiais que vêm com os seus próprios problemas. Finalmente, gestores e executivos veem-se frequentemente perante fortes incentivos a introduzirem erros deliberados nos relatórios financeiros.
Este artigo analisa os desenvolvimentos recentes mais importantes para os relatórios financeiros, particularmente as novas regras que governam o reconhecimento das receitas, a proliferação de medidas de desempenho não oficiais e as dificuldades de avaliação de valores de ativos.
Debruça-se também sobre a prática insidiosa de manipular, não os números nos relatórios financeiros, mas as decisões operacionais que afetam esses números, num esforço para obter resultados a curto prazo.

Problema 1:
Padrões Universais Em 2002, o mundo parecia estar na eminência de uma revolução contabilística. Estava em desenvolvimento uma iniciativa para criar um conjunto único de padrões contabilísticos internacionais, com o objetivo de unificar os Generally Accepted Accounting Principles (GAAP) dos Estados Unidos e os International Financial Reporting Standards (IFRS) que os países europeus se preparavam para adotar.
Hoje em dia, pelo menos 110 países em todo o mundo usam o sistema, de uma forma ou outra. Porém, em sentido amplo, a convergência estagnou, pelo que compreender o verdadeiro valor de uma empresa e comparar as contabilidades de empresas em países diferentes continua a ser complicado.

Problema 2:
Reconhecimento das Receitas O reconhecimento das receitas é uma peça complicada do puzzle regulatório. Suponhamos que vendemos um smartphone ou um serviço de internet a um particular ou a uma empresa. O contrato para esse produto ou serviço inclui muitas vezes upgrades futuros cujos custos não podem ser previstos no momento da venda. Ao abrigo das regras atuais do GAAP, se não existir uma maneira objetiva de medir antecipadamente esses custos, a empresa não tem permissão para registar qualquer receita dessa venda até que todas as exigências de upgrade tenham sido fornecidas e os seus custos sejam conhecidos.
Esta regulação levou algumas empresas de software a elaborar contratos que especificam separadamente os preços dos upgrades e de outros serviços difíceis de avaliar. O resultado é um sistema perverso em que as regras contabilísticas influenciam a forma como o negócio é feito em vez de descreverem o seu desempenho.

Problema 3:
Métricas de Receitas Não Oficiais Embora as métricas de receitas não oficiais sejam relativamente novas para muitas empresas, todos os tipos de negócios empregam desde há muito tempo medidas não-GAAP e não-IFRS. O perigo é que as medidas alternativas em geral são idiossincráticas. Mesmo as medidas vulgarmente usadas podem não ser comparáveis de empresa para empresa — ou na mesma empresa, de um ano para o outro — devido às diferenças no que é ou não incluído no cálculo.

Problema 4:
Contabilidade a Valor Justo Os executivos e os investidores têm duas medidas à sua disposição para determinarem o valor dos ativos de uma empresa: o preço pago originalmente e a quantia em que esses ativos resultariam se fossem vendidos hoje (valor justo).
Hoje em dia, as empresas usam o valor justo para um número crescente de classes de ativos, na esperança de que um exame do balanço geral produza uma imagem mais verdadeira da realidade económica atual. Mas, visto que nem toda a gente concorda na definição de “valor justo”, a medida injetou uma enorme subjetividade no processo de reporte financeiro.

Problema 5:
“Cozinhar” as Decisões, Não os Livros Quando contabilistas, analistas, investidores e diretores de empresas falam de jogos contabilísticos, concentram-se normalmente na forma como os custos são acumulados nos relatórios da empresa.
Os gestores podem, por exemplo, escolher exagerar deliberadamente despesas ou prejuízos — para criar um mealheiro de reserva que pode ser publicado em períodos futuros, aumentando assim artificialmente os lucros. Ou, pelo contrário, a empresa pode adiar deliberadamente o reconhecimento de uma despesa ou de uma perda no ano corrente. Nesse caso, o lucro vem de empréstimo de exercícios futuros para aumentar o lucro no presente.
Os executivos corporativos podem fazer como lhes agradar, com a tranquilidade de saberem que os auditores não podem confrontá-los.
O que torna estas descobertas tão perturbadoras não é apenas o facto de estas práticas estarem espalhadas, mas o de não constituírem violações do GAAP ou do IFRS. Os executivos corporativos podem fazer como lhes agradar, com a tranquilidade de saberem que os auditores não podem confrontá-los. O que é mais, este comportamento destrutivo é extremamente difícil de detetar ao abrigo das atuais regras de divulgação.

As Novas Ferramentas Analíticas Podem Ajudar
É óbvio que enquanto as normas contabilísticas continuam a melhorar, prevenindo as fraudes, mas os incentivos dos executivos para atingir objetivos a curto prazo se mantêm fortes, as empresas continuarão a cozinhar as decisões em vez de cozinhar os livros. O que é necessário são abordagens mais inteligentes para analisar os dados disponíveis. A boa notícia é que há novas técnicas a serem cada vez mais aplicadas pelos analistas e pelos investidores.
Uma abordagem à análise dos relatórios das empresas que recentemente ganhou o favor dos mercados financeiros baseia-se na Lei de Benford, que descreve a distribuição de dígitos em conjuntos de dados numéricos. Se um conjunto de dados contabilísticos se desviar da Lei de Benford, isso pode ser considerado prova de manipulação.
Outra ferramenta para detetar práticas fraudulentas emergiu da pesquisa de dois académicos de Contabilidade que se inspiraram em estudos psicológicos que mostram como os padrões de discurso das pessoas mudam quando estão a mentir. As pistas verbais também podem ser uma ferramenta útil para os membros dos conselhos de administração e outras partes interessadas descobrirem práticas desonestas.
É também de notar que a manipulação de resultados financeiros é mais prevalente nos primeiros anos do mandato de um CEO e vai diminuindo ao longo do tempo, segundo um estudo recente. Uma explicação possível é que os anos iniciais são o período de maior incerteza sobre a capacidade de um CEO, pelo que este pode distorcer os lucros num esforço para manter o emprego. A lição que os membros dos conselhos e os investidores podem retirar daqui é que devem manter-se especialmente atentos às práticas contabilísticas de uma empresa quando entra um novo CEO.

Resumo da Ideia

O PROBLEMA
Apesar de normas financeiras cada vez mais apertadas, como as Leis SarbanesOxley e Dodd-Frank, os investidores, membros de conselhos de administração e executivos ainda não podem confiar nos relatórios financeiros para tomarem boas decisões quanto a investirem numa empresa ou adquiri-la.

PORQUÊ
Em primeiro lugar, ocorrem estimativas deficientes nos relatórios financeiros, mesmo quando realizados de boa-fé. Em seguida, as métricas oficiais nem sempre captam o verdadeiro valor das empresas, especialmente para as empresas inovadoras, em novos mercados. Em terceiro, os executivos continuam a deparar-se com fortes incentivos para manipularem os números.

QUE FAZER
Neste artigo, os autores examinam o impacto de regulações financeiras recentes e consideram novas técnicas para combater a manipulação dos números do desempenho.

Sobre o Leopardo.pt

O Leopardo.pt nasceu da necessidade da existência de um portal de informação destinado a ajudar empresários, empreendedores, e em geral, todos os que se interessam pelas temáticas da Gestão e da Contabilidade, fundamentais no mundo dos negócios.
© 2015 Leopardo.pt | Todos os direitos reservados

Newsletter

Back to Top